Em São Paulo, diante da equipe de jornalismo da Enfoque, estava um supercraque do futebol. Aquele que tem chamado a atenção da mídia, da torcida, dos fãs e também do público evangélico. Mas o homem-atração mostrase simples, senta no sofá, abre um sorriso e responde a tudo, certo de que sua fé está acima de qualquer jogada. Base cristã e formação bíblica são o que não falta para Ricardo Izecson Santos Leite, conhecido no mundo inteiro por Kaká, seu apelido de garoto. Profissional da bola, é contratado do clube italiano Milan até o ano de 2009. E desde 2002 está escalado para a Seleção Brasileira, tendo participado do Tetracampeonato. Seu talento foi descoberto aos 8 anos de idade, quando jogava futebol no Colégio Batista. A partir de então, Kaká vem sendo destaque, despontando não somente como bom jogador, disciplinado, educado, discreto, mas também como um qualificado seguidor de Cristo. Simpático, bonito e totalmente comprometido com Caroline Celico, de quem é noivo desde o dia 20 de abril, o moço nesta entrevista abre o coração para falar como atleta, homem apaixonado, evangélico e pessoa humana.
ENFOQUE - Você nasceu em lar evangélico. Mas como amadureceu sua fé? KAKÁ - Chegou um ponto na minha vida em que eu precisava viver uma experiência individual com Deus, crescer espiritualmente. Meus pais fizeram a parte deles. Depois comecei a caminhar com as minhas próprias pernas, e um grande passo que dei foi o meu batismo aos 13 anos na Igreja Renascer. A partir daí, tudo foi acontecendo muito mais rápido e mais forte na minha vida, tendo experiências com Deus muito maiores.
ENFOQUE - Como foram seus primeiros contatos com a bola?
KAKÁ - Eu estudava no Colégio Batista, e o professor de Educação Física chamou minha mãe, pedindo que me colocasse numa escolinha de futebol porque achava que eu tinha talento. Eu tinha 8 anos. Ela fez isso, e eu fiquei jogando nesta escolinha durante um ano. O treinador era o do Alphaville Tênis Clube e acabou me levando para lá, onde fiz uma final contra o São Paulo. No outro ano, fiquei sócio do clube e comecei a jogar pelo São Paulo.
ENFOQUE - Mas você tinha um problema para um garoto de sua idade.
KAKÁ - Sim. Eu tinha problemas de crescimento. Tinha dois anos de atraso na minha idade óssea. Então, era pequenininho, magrinho... Quando tinha 11 anos, meu corpo era o de uma criança de 9. Meus pais ficavam preocupados se eu ia crescer ou não. Então, o São Paulo começou a fazer um trabalho de desenvolvimento, de acompanhamento do meu físico. Mas só cresci a partir de 15 anos. Hoje tenho 1,85m de altura.
ENFOQUE - Como foi sua adaptação à mudança para a Itália?
KAKÁ - Foi uma grande bênção. Estou num grande clube da Europa e junto de toda minha a família. Meus pais moram comigo, meu irmão também joga no clube em uma categoria abaixo do profissional, os juniores. O grande problema na Itália é em termos de igreja e propagação do Evangelho, pois eles são muito ligados ao catolicismo. Mas tenho sido abençoado, falado e mostrado o poder de Deus por meio da minha vida.
ENFOQUE - O que foi mais fácil e mais difícil na adaptação naquele país? KAKÁ - Acho que o mais fácil foi a comida. A massa italiana é inigualável.
A maior dificuldade é o frio. O inverno de lá é realmente cruel.
ENFOQUE - Faz parte de algum grupo dos Atletas de Cristo lá?
KAKÁ - Sou um Atleta de Cristo, mas não faço parte diretamente dos Atletas de Cristo.
ENFOQUE - E como é estar na Itália e ter uma comunhão com a Igreja?
KAKÁ - Lá fico sempre ligado na internet, escuto o culto pelo rádio, recebo ministrações e pregações e sempre que possível ligo para o apóstolo Estevam Hernandes, meu pastor. Minha mãe ajuda em oração. A gente está sempre orando em família, lendo a Bíblia, fortalecendo a nossa fé.
ENFOQUE - Como é seu relacionamento com os atletas do Milan?
KAKÁ - Excelente! No primeiro ano me receberam muito bem e não tive problemas de ciúmes. Logo que cheguei, o treinador me deixou como titular, e ninguém implicou. Jogo com mais três brasileiros, que são o Serginho, o Cafu e o Dida, excelentes companheiros, pessoas fundamentais na minha adaptação. E no time apenas eu sou evangélico.
ENFOQUE - Como se posiciona diante de situações que provam sua fé?
KAKÁ - Eu estabeleci na minha vida que a opção que fiz foi de seguir o Evangelho, seguir Jesus e me firmar em Deus. Então, pode vir vento, tempestade, que minha vida foi firmada na Rocha. Venha fama, dinheiro ou provações, há coisas, valores muito mais importantes que prefiro manter. É dessa forma que vivo e aproveito a fama para falar e dar meu testemunho. Se não vamos levar nada daqui, quero ganhar é no meio espiritual.
ENFOQUE - Com toda esta convicção, que pessoas já aceitaram o Evangelho por meio de você?
KAKÁ - Muitas vidas foram alcançadas por intermédio do meu testemunho. Um grande exemplo é minha noiva, que não era evangélica quando nos conhecemos. Sempre orei ao Senhor para que me desse uma mulher de Deus. E muitas vezes a mulher de Deus não é aquela que vive dentro da igreja. Essa foi uma lição que aprendi. A gente cresce com aquela religiosidade, pensando que a mulher de Deus está dentro da igreja e muitas vezes não é assim. Há várias formas de Deus trabalhar. Sempre pedi uma mulher de Deus, que mesmo estando fora da igreja, tivesse um coração para Deus. Nosso namoro foi marcado por alguns sinais. Por exemplo, eu não queria convidar a Caroline para ir à igreja porque seria muito fácil ela ir para me agradar. Disse que se fosse uma mulher de Deus, ela desejaria ir por vontade própria. E foi assim que aconteceu. Depois de três meses de namoro, ela se interessou em conhecer a igreja. Após seis meses, foi batizada e está crescendo na igreja, faz cursos para formação de pastores e líderes. Ela é um grande testemunho de salvação.
ENFOQUE - Qual é a diferença entre o futebol europeu e o brasileiro?
KAKÁ - O italiano, com que estou mais acostumado, tem muita marcação. É um futebol muito tático; usam pouco a criatividade. Quando cheguei lá procurei mesclar um pouco dessa disciplina tática deles com a criatividade e espontaneidade do jogador brasileiro.
ENFOQUE - E qual é a diferença de preparação física do Milan e do São Paulo?
KAKÁ - A diferença está nos treinamentos. No Brasil, no São Paulo, a gente treinava por um período longo e com pouca intensidade. Na Itália, treinamos num período curto com muita intensidade. Basicamente a diferença é essa.
ENFOQUE - Desde muito novo, seu nome estava nas escalações da Seleção. Como lida com essa responsabilidade e cobrança?
KAKÁ - Fico feliz porque é muito bom você ter responsabilidade cedo. Isso faz a gente crescer, amadurecer. E eu sempre sonhei em ser titular da Seleção. Acho que todo garoto que sonha em ser jogador, sonha com a Seleção Brasileira. E espero que possa fazer uma bonita história na Seleção e ficar muito tempo jogando com a camisa verde e amarela.
ENFOQUE - No futebol existe a expressão "Maria Chuteira". Como encara esse tipo de assédio?
KAKÁ - Com o valor da fidelidade, o valor de ter a minha namorada e ser fiel a ela. Então, não tenho problema com Marias Chuteiras. Fico feliz por ter fãs, por aqueles que torcem por mim, pelo profissional que sou. Mas tenho minha noiva agora e essa parte do meu coração está preenchida.
ENFOQUE - Seu irmão Rodrigo também está jogando no Milan. Você acha que isso é um motivo de especulação de ele estar jogando lá por sua causa?
KAKÁ - Não, de forma alguma. Ele é bom de bola, joga como zagueiro, e vai depender dele. Quando se tornar um jogador profissional, aos poucos, vão tirar esse rótulo de ele ser irmão do Kaká para que se torne Rodrigo.
ENFOQUE - Em seu convívio com os jogadores brasileiros, você tem tempo de evangelizar alguém?
KAKÁ - Na Seleção existe um maior número de evangélicos. Normalmente, sou eu, Lúcio, Zé Roberto, Edmilson, Ricardo Oliveira... Um grupo grande. Então, é mais fácil estar falando, fazendo reuniões e convidando os jogadores para participar.
ENFOQUE - Em que momento de sua vida sua fé foi mais provada?
KAKÁ - Ela é sempre provada. Mas teve um momento, antes de eu me tornar jogador profissional, em outubro de 2000, em que fui descer no escorregador da piscina em Caldas Novas, onde mora o meu avô paterno, e bati com a cabeça no fundo da piscina. Meu pescoço virou e eu fraturei a sexta vértebra, precisando usar um colete cervical e ficar em casa de repouso. Acho que são coisas que a gente tem de passar para aprender, para ser provado, para que sejamos habilitados. Naquele momento, eu não entendia por que estava passando por aquilo, mas meses depois, houve uma grande revolução na minha vida e eu me tornei um jogador profissional do São Paulo, em janeiro de 2001.
ENFOQUE - Você é o craque da bola. Mas gosta de outro esporte?
KAKÁ - Gosto de jogar tênis, quando eu posso. Gosto de vôlei, natação... e sempre muito ligado ao futebol (risos).
ENFOQUE - Você participa de alguma iniciativa social ou dá apoio?
KAKÁ - Sim. Sou embaixador da ONU do Programa Alimentar Mundial contra a Fome, com sede em Angola. Uma iniciativa de luta contra a fome no mundo, uma grande porta que Deus abriu para mim.
ENFOQUE - Você é vaidoso? Como você se cuida?
KAKÁ - Não sou relaxado, mas não sou vaidoso ao extremo. Sou normal, penteio o cabelo, uso perfumo, escovo os dentes, tomo banho, nada demais (risos).
ENFOQUE - Como é namorar à distância?
KAKÁ - Muito difícil! São dois anos que a gente está namorando à distância. Mas, graças a Deus, acabou porque ela terminou os estudos do ensino médio e agora vai ficar pertinho de mim.
ENFOQUE - Com 23 anos você está se preparando para casar. Não acha muito cedo?
KAKÁ - Não. Acho que isso é um rótulo que acabaram colocando sobre casamentos que acontecem cedo e que podem não dar certo. Não acredito nisso. Acredito na promessa que Deus tem para minha vida, que é ter uma família, ter minha esposa. Tenho um bom exemplo dentro de casa. Meus pais casaram cedo também e eles estão juntos até hoje. Acho que existem muitos bons exemplos para estar seguindo e não pegar referências que o mundo tem para dar.
ENFOQUE - Quais os planos para o casamento? Tem alguma idéia de onde vai ser?
KAKÁ - Namoro a Caroline há dois anos e meio, e em breve sai o nosso casamento. Provavelmente, será na igreja em que congrego, na Renascer de São Paulo. Pretendo fazer uma festa normal para os amigos e para as pessoas queridas que acompanharam a minha vida e a dela. Vai ser em breve, mas não temos ainda uma data.
ENFOQUE - É verdade que, no contrato com o Milan, você pediu para que sua noiva pudesse viajar sempre para a Itália?
KAKÁ - No contrato, tenho direito a algumas passagens e a inclui, por ser minha namorada, e também minha família. Assim, todos da minha família e minha noiva têm passagens para Milão. É uma prioridade, uma necessidade. É difícil namorar à distância, mas, sempre que possível, peço para ela ir a Milão para que a gente possa ficar junto.
ENFOQUE - Como você lida com os momentos de derrotas nos jogos?
KAKÁ - Realmente, é difícil. Mas já cheguei numa fase da minha carreira em que aprendi a lidar com a derrota. Mas procuro fazer tudo enquanto estou dentro de campo, dar o máximo que posso para que saia com o dever cumprido, sabendo que fiz o que pude para que eu, fora de campo, não fique arrependido, pensando: "Podia ter corrido mais um pouquinho." Então, essa é a forma como lido com a derrota. Davi, enquanto seu filho esteve doente, jejuou e sofreu. Depois que morreu, ele partiu para a vida e deu um banquete. Portanto, é mais ou menos dessa forma.
ENFOQUE - E o tema virgindade? Como fala sobre o assunto?
KAKÁ - Sempre me coloco imparcial. As pessoas acabam rotulando você. Esse é um assunto que não gosto mesmo de estar comentando e falando. Acho que o fã tem o direito total de saber da minha vida particular, mas não da minha vida íntima. Sobre a pessoa que está comigo e as decisões que tomo ou que tomei, cabe a mim, a Deus e à pessoa que está comigo.
ENFOQUE - Na Itália há muito paparazzo atrás de você?
KAKÁ - Demais! O que mais tem na Itália é isso. Você não pode sair sossegado nas ruas. Mas a maior preocupação é para aqueles que fazem coisa errada. Eu sou tranqüilo, tenho só a minha namorada, minha família. Outro dia, me pegaram com a minha mãe na rua e colocaram na manchete: "Quem é essa que está do lado dele? Será que é a nova amante?" Aí, embaixo, aparecia outra frase dizendo que era só a minha mãe fazendo compras comigo (risos).
ENFOQUE - Você tem fã-clube na Itália?
KAKÁ - Tenho, mas lá é muito diferente. Normalmente, o fã é o fã pelo futebol, não é o fã como aqui. Eles são admiradores do futebol.
ENFOQUE - É verdade que uma vez uma fã furou o bloqueio de segurança e foi pedir você em casamento?
KAKÁ - Bem, ela não furou o bloqueio. Eu pedi para que ela entrasse e tirasse uma foto comigo. Depois, realmente, ela fez o pedido de casamento. Ela disse que há três anos vivia daquela forma, que não agüentava mais e que estava indo ali para ouvir uma resposta sim ou não. É duro porque não sei até que ponto existe o sentimento, pois não gosto de brincar com os sentimentos de ninguém. Falei para ela que estava noivo e que ia casar com outra pessoa. Não sei qual foi a reação dela depois. Fico feliz por ter fãs, mas, às vezes, é difícil...
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